18 Julho 2009

Ashes and Snow Gregory Colbert's




Desde que se presentó por primera vez en Venecia en 2002, más de un 10 millones de personas han visitado Ashes and Snow, una exposición de más de cincuenta trabajos fotográficos a gran escala, una película de 60 minutos y dos cortometrajes “haikus” de Gregory Colbert.
El Nomadic Museum, el hogar itinerante de Ashes and Snow, debutó en Nueva York en marzo de 2005, y desde entonces ha estado en Santa Monica, Tokio y la Ciudad de México. La próxima instalación de Ashes and Snow en el Nomadic Museum tendrá lugar en Brasil en 2009.

( texto retirado do site: http://www.ashesandsnow.org/es/home.php)


Vamos aguardar então!!

Beleza

* foto de Gregory Colbert

06 Julho 2009

Intensidade

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons,
nos movimentos,destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo,
glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Murilo Mendes

11 Maio 2009

Eu sei, mas não devia





Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti









07 Maio 2009

Meias tintas

19 Abril 2009

Beleza

Beleza e Canção
Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant



Nada de novo no meu mundo
eu vivo o segundo
Meu tempo é o meu lugar
Nada me tira do meu rumo
Eu sigo o meu prumo
O meu jeito de ser
Nada espero que não tenha
O que vier que venha
Sem me atropelar
Tudo que quero é o mar aberto
É ter você bem perto
Olhar no seu olhar
Tudo é novo no meu mundo
Se seu sono profundo
Entrar no meu sonhar
Sua beleza me domar
Sua beleza me amar
Toda beleza é um espinho
Se ela está sozinha
Sem ninguém desfrutar
Toda beleza é tristeza
Se não tem a certeza
De alguém comtemplar
Toda beleza é uma chama
Que, acende e inflama
Paixão de encontrar
Toda beleza é uma alegria
Que incendeia o dia
Faz a vida cantar
Tudo é belo no meu mundo
E cabe no meu canto
No meu tempo e lugar
Tudo é claro no caminho

Se não estou sozinho
E alguém vai me guardar
Nada de novo no meu mundo

E o sol a cada dia
Na noite a escuridão
Tudo de novo no meu mundo
Comigo eu carrego
Beleza e canção

19 Março 2009

A vida

"...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia: pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim, pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? - perguntou o Visconde.

- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"

Memórias de Emília,1936. Monteiro Lobato